Ela foi, a ultima falante da língua dos Pataxó Hã hã hãe. E por isso, teve muito a nos ensinar. Quem, mais do que todos, porem, anseia por suas lições, são os seus herdeiros-despossuidos das terras de seu povo, das tradições milenares que fomos obrigados a abandonar (sob pena de sermos brutalmente e sumariamente dizimados sob a mira dos que, não sendo índios, cobiçaram nossos territórios), de nossa própria língua, enfim.
Depois de décadas de perseguições e diáspora, nós tivemos condições, a partir de inícios dos anos 80, de reivindicarmos a retomada de uma parte de nossa terra que nos fora usurpada.
É nesse momento de volta ao nosso território tradicional e de direito constitucional, e de assunção publica de nossa identidade especifica, que nós avaliamos a gravidade de nossas perdas. Tanto da língua indígena entre outras.O material que ora se publica é resultado de uma pesquisa na área da antropologia lingüística, realizada em 1982, na aldeia indígena Caramuru (hoje Bahetá, em homenagem a própria) no município de Itaju da Colônia (sul da Bahia), pelos antropólogos Greg urban (da universidade do Texas, em Austin, EUA) e Maria Aracy de Pádua Lopes da Silva (da universidade de São Paulo USP) que tiveram a professora Maria Hilda Paraíso (da Universidade Federal da Bahia) a sugestão de trabalhar com Bahetá e a cessão de material colhido em sua própria pesquisa de 1976. A única informante foi, naturalmente, Bahetá. Foram registradas 129 palavras e 2 orações, cuja transcrição fonética e fitas magnéticas respectivas foram posteriormente encaminhadas ao instituto de estudos da linguagem, da UNICAMP (universidade estadual de Campinas, São Paulo). Ali, foi elaborada uma grafia para as palavras coletadas, professora Eni P. Orlandi.
As condições da pesquisa foram extremamente difíceis. A idade avançada, o fato de ser a ultima falante de uma língua fadada ao desaparecimento, e o custo psicológico deste processo, tudo isso exigiu de Bahetá um esforço sobre humano. Esforço profundamente reconhecido por nós índios do sul e extremo sul da Bahia.
Tanto, que solicitamos à Comissão Pró Índio de São Paulo a publicação dos resultados da pesquisa.
Devolver a nós, os legítimos donos, o que foi possível recuperar da Atxohã ( língua ) Pataxó Hã hã hãe é razão de ser deste livro. Pesquisas mais aprofundadas são urgentes e talvez fosse conveniente, dirão, esperar seus resultados antes de organizar uma publicação.
Nós Pataxó Hã hã hãe de hoje, porém, não pensam assim. Mais urgente é a necessidade de nos alimentarmos do saber de Bahetá e de tudo o que significa em termos de sobrevivência, de dignidade e da liberdade de querer ser índio.

Reginaldo Ramos dos Santos
Akanawan Baenan – PATAXÓ hà Hà HÃE

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3 COMENTÁRIOS

  1. Parente Akanawan, eu possuo um exemplar antigo do livro!!! Já à algum tempo eu pensava em envia-lo aos Pataxó Hã hã Hãe. Pois acreditava que os livros não haviam chegado até vocês!!!!Só não sabia a quem enviar, se quiser, entre em contato pelo e-mail, me envie o endereço e logo o livro chegará em suas mãos!!!! Um forte abraço!!!!!

  2. Considero importante que os registros sobre os demais Povos Indígenas da Terra Indígena Paraguaçu/Caramuru sejam acessados por vocês. Além da língua Pataxó (da família Maxakali) há vocabulários Baenã e Meniã (família Kamakã) e mitos Kamakã e Kariri Sapydjá (povo de Samado dos Santos) coletados por Curt Nimuendajú e publicados pelo IPHAN. Há muitas informações registradas por etnólogos e lingüistas que penso deveriam ser devolvidas a vocês para auxiliar a atualização da memória de seus antepassados, contribuindo para complementar a tradição oral, e trabalhar nas escolas.

  3. Relendo o texto, sugiro ainda que as fitas magnéticas sejam digitalizadas em cd para que a voz de Bahetá possa ser escutada por seus parentes, e se possa aprender a pronúncia correta da língua, que se perde na escrita.

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