E se tivéssemos olhos de índio?

Não assim puxadinhos, não no biotipo. Não é sobre aparências.

Mas, sim, intimamente… e aí, o que esse olhar veria? O que eles veem que nos escapa?

Um certo aprofundar-se em cada miudeza, uma falta providencial da famigerada pressa…

Um respeito levado às ultimas consequências.

Um ouvir, atento…porque para ver, se usam todos os sentidos. Se observa com o corpo inteiro, se mergulha…se mistura.

Sim, se eu tivesse olho de índio, não tinha medo de me envolver. É esse medo de se fazer homogêneo que nos distancia… medo de imergir por completo em cada folha, cada flor, cada bicho, cada ser. Essa fusão, homem-terra, homem-cosmos… deve ser isso que nos assombra. Parece tão grande! Onde nos levaria? Terei forças?

Suportaríamos esse choque tão surreal?

E tão real. Tão possível.

Mas a gente quer tudo para agora! E quer já processado. Já traduzido por alguém…

Quer respostas à jato. De preferência engendradas por outros.

Deus nos livre de pensar não é?

Faz pena.

Se eu tivesse olhar de índio…degustava o tempo. Sem medo de morrer amanhã.

Me deliciava com a vida, com cada pedacinho. Parava com essa mania feia de engolir inteiro. Esquecida da arte de mastigar.

Ah…eu quero um olhar de índio.

Olhar que os branquelos como eu, cheios de certezas vãs, contaminaram todo.

Cheios de certezas que hoje, não servem mais para nada..

E humilhados, sei lá, derrotados…imploramos remissão. A alguém, aos céus, a quem nos possa acudir.

Mas não todos.

A maioria ainda se vê no centro do universo. Dormem. Ou estão mortos…dentro de suas imensas ilusões.

Mas eu cansei…tem um monte de gente cansada também.

Quero meus olhinhos puxados também na alma. Quero ver além desse destroço todo.

Quero ouvir, cheirar, saborear, tocar. A vida! Sem traumatizá-la. Sem deturpá-la.

Sem apequenar o sagrado, sem coisificar o eterno.

Quero um diálogo olho a olho. Com meus erros que imprimidos foram por onde andei. Com meu tempo perdido. Com minha casca indiferente.

E com os erros de cada um sobre essa terra.

E que seja um diálogo muito mais de mútuo perdão que de guerra.

Muito mais de harmonia…porque a pressa vai ficar lá fora.

O ego, embora presente, será advertido a permanecer calado.

E teremos uma chance de reparar as coisas.

Uma remissão, ainda que fragmentada, porque não somos deuses.

Mas só se nos couber, ainda nessa altura da vida, um olhar de índio.

Sim, ainda me atrevo.

Sem medo de morrer amanhã.

                                                                                                                                                                                                                                                                                     Gi Stadnicki. (Filósofa e Escritora)

 

 

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