(REPUBLICAÇÃO DE MATERIA JÁ PUBLICADA ANTERIORMENTE NESSE SITE)

Tem índio na rede

Rio de Janeiro, RJ – terça-feira, 17 de abril de 2007 – 06:00:12

Josy Fischberg* » josy@oglobo.com.br • PAU-BRASIL, Bahia

Desde que nasceu, há 17 anos, Olinda Wanderley, ou Clairê, seu nome
indígena, ouvia histórias sobre o primo Erick. Ela, na Terra Indígena
Caramuru-Catarina Paraguaçu, Bahia. Ele, no bairro de Santa Cruz, Rio
de Janeiro. Na primeira vez em que trocaram uma palavra, em 2004, não
estavam em nenhuma tribo ou manifestação de índios: encontravamse, os
dois, em frente a um computador, logados no chat do site
www.indiosonline.org.br>. O primo Erick realmente existia e, agora,
podia contar ele próprio suas histórias.

— Conversamos muito, principalmente sobre política indigenista e as
terras do nosso povo nunca devolvidas. Já percebi que escrevemos com
muita emoção, sempre — diz o designer Erick Muniz, que deixou
Caramuru-Catarina Paraguaçu em 1987, quando tinha 13 anos.

“Índios on-line” é um projeto da ONG Thydewas, formada por índios e
nãoiacute;ndios, que há três anos vem facilitando a comunicação entre
sete nações indígenas da Bahia, de Alagoas e de Pernambuco, através da
internet. Entre essas nações, estão os PataxóHãhãhãe, do sul da Bahia,
da qual fazem parte Olinda e Erick.

Existem cerca de 20 mil índios em todas elas.

Há computadores conectados, via satélite, nessas aldeias e os índios
não só navegam na rede, mas também são responsáveis pelo conteúdo do
site. De quebra, ainda trocam experiências no chat, aberto a todos.

O ponto de encontro “webindígena” atrai pesquisadores de diversas
áreas, além de, claro, estudantes.

— Já recebemos jovens desesperados por informações para trabalhos
escolares ou de faculdade.

Sempre “para amanhã” — conta, rindo, Ivana Cardoso, descendente de
índios Kiriri, formada em direito e diretora executiva da Thydewas.

Se de um lado da linha estão jovens brancos, do outro muitas vezes
estão jovens índios.

Na aldeia dos Pataxó-Hãhãhãe são muitos os que participam ativamente
do projeto.

Jerusa Alves da Costa, de 21 anos, Ionana, é a campeã de textos
postados no site.

— Comecei a ter vontade de escrever depois que o meu pai morreu, na
luta por terras. Gosto quando as pessoas elogiam, mas gosto mais ainda
quando fazem críticas construtivas.

Edmar Batista de Souza, Itohã, de 22 anos, que, em breve, deixará a
aldeia PataxóHãhãhãe por alguns anos para cursar educação física na
Universidade Estadual de Feira de Santana, está no “Índios on-line”
desde o início.

— Começamos com o projeto “Índio quer paz”, para minimizar a
discriminação dos brancos contra os índios, agravada pelas retomadas
de terra.

Íamos até as cidades próximas para mostrar a nossa cultura.

Agora, com a internet, mostramos a nossa cultura para o mundo — explica.

Além de textos e fotos, o site ainda mantém, desde o ano passado, o
curso Arco Digital, financiado pelo programa “Novos Brasis”, do Oi
Futuro, que também atua em sua gestão.

Índios do Brasil participam de oficinas de cidadania, desenvolvimento
e sustentabilidade, entre outras, através da internet e do trabalho de
campo.

— O Arco Digital é uma comunidade colaborativa de aprendizagem.
Discutimos, por exemplo, o tipo de desenvolvimento que os índios
querem para eles — afirma Sebastián Gerlic, presidente da Thydewas.

Olinda, lá do início do texto, é uma das participantes das oficinas.

Ela não mora mais em Caramuru, mas em Palmeiras, Chapada Diamantina,
onde estuda.

Como o primo Erick, quer um dia voltar. O encontro dos dois ao vivo,
registrado na capa desta edição, aconteceu na própria aldeia e foi o
primeiro, depois de anos de comunicação por internet.

Com internet, sem telefone

“A escola está voltada para a nossa cultura. Aprendemos espanhol, em
vez de inglês, para nos comunicarmos com outros índios”

A Terra Indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu hoje tem computadores
conectados com o apoio do programa Cultura Viva, do Ministério da
Cultura, e do Gesac (Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao
Cidadão), do Ministério das Comunicações. – Com a internet, os índios
reivindicam e, em alguns casos, já conseguiram melhorias, como, por
exemplo, nos postos de saúde – diz Sebástian Gerlic, da Thydewá.Na
aldeia dos Pataxó-Hãhãhãe, um rapaz, picado por uma cobra, conseguiu
socorro graças à grande rede. Na região onde mora, não há telefones,
mas havia internet. Assim vivem os PataxóHãhãhãe: com internet, mas
praticamente sem telefone e com estradas de acesso em péssimas
condições. Sua história é marcada por expropriações e violência. A
terra onde moram foi demarcada em 1937, mas foi invadida e
transformada em fazendas, nas décadas seguintes. A partir de 1982, os
índios deram início a um processo de retomada. Pataxó-Hãhãhãe é o nome
que denomina índios de diferentes etnias (Baenã, Pataxó Hãhãhãe,
Kamakã, Tupinambá, Kariri-Sapuyá e Gueren). Ainda assim, há boas
notícias. Em 2008, a Escola Estadual da Aldeia Caramuru-Paraguaçu terá
sua primeira turma de 3° ano do ensino médio.

– A escola é indígena e está voltada para a nossa cultura.
Aprendemos espanhol em vez de inglês, para podermos nos comunicar com
outros índios do continente, por exemplo – diz Kele Muniz, de 17 anos.
No ano que vem, retornam à aldeia dois jovens que hoje estudam
medicina em Cuba.

– Os mais novos sabem da importância de se formarem e voltarem para o
nosso povo – afirma a cacique Maria Muniz de Andrade, Maya.

Terra de Galdino e seus irmãos

Eles eram 12 irmãos. Hoje, são dez. É certo que todos lembram da morte
do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado por jovens em
Brasília, há dez anos. O que pouca gente sabe é que um irmão de
Galdino, João Cravim, já havia sido morto a facadas, em 1987, por
causa da disputa de terras em Caramuru-Catarina Paraguaçu.
– Nossa família é marcada por fatos trágicos.Galdino e João eram
engajados. Não foi apenas a família que perdeu com essas mortes. Foram
todos – diz Marilene dos Santos, irmã de Galdino, agente de cultura e
uma das líderes locais. De fato, a importância de Galdino é sentida
pela aldeia em pequenos detalhes. Os alunos da foto ao lado, por
exemplo, estudam em uma sala de aula cujo nome é “Galdino”. – Era
pequena quando Galdino morreu, mas sei que o fato serviu para que mais
índios passassem a ter consciência de que precisamos da terra – diz
Conceição Souza, de 18 anos.

* A equipe viajou a convite do Oi Futuro

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