Foi só plantando roça

Foi só plantando roça e o resto lutando, ajudando o próprio índio…

No tempo que eu me entendi já tinha o toré, eu sou dos novos. O finado Assilon era tio de minha mulher.

Antes o cacique era seu Deodato, aí me colocaram e já faz 12 anos que sou o cacique.

Hoje, já lutamos muito pela qualidade na aldeia, mas graças a Deus, nós vencemos.

Tinha muito posseiro que chegavam perto de mim, tomavam as decisões comigo, eu respondia bom pra eles e até hoje, não fiquei com intriga de nenhum posseiro, de jeito nenhum.

Até esse momento, se alguém ficar doente, é só chegar em mim, que nós resolve na hora, levamos pra cidade, se precisar. Eu tenho que visitar o doente, saber como ele ta, se precisa de um médico, de ir pra mais longe, a gente dá um jeito.

Tem muitos que fazem remédio de casca de pau, também.

Apolinário Siqueira, o Chincha, o bicho era ruim e mandava recado à Gomes, o administrador da FUNAI . Esse Chincha mandava dizer: Amanhã vou matar tudinho!! Não vai restar um só índio nessa terra!

A gente trabalhava com os posseiros de “meia”. Muitos índios aqui trabalhavam com ele na roça de feijão, milho, cana (pra dar para o gado). Se um trabalhador tirasse uma cana pra chupar, ele tinha que pagar. Se um índio tivesse um bode ou outro animal que pulasse pra cerca de Chincha, ele mandava matar o bicho.

Aí eu criei medo.

Nós tomamos a porteira e tinha um delegado Vidigal e eu mandei seu Deodato, Lurdes Cirilo e Lurdes Ciriaco pra Brasília e fiquei ao redor dos outros.

Ficamos na porteira de borduna, facão, pau, foice e botamos uns piquetes (paus e pedras pra gente se esconder) nas saídas e rodagens.

Depois de tudo indenizado, esse Chincha veio até minha casa para pedir desculpa por tudo!

Chincha me disse: Pelo amor de Deus, me perdoe. Foi uma esmola que Deus me deu. Já peguei o meu dinheiro e agora vocês fiquem tranquilos, fiquem com deus e eu vou com Deus.

Ele só vinha até a minha casa pra tomar decisão, pois eu era liderança. Mas também, só veio pedir desculpa, já com o dinheiro na mão.

Eu perdoei.

Depois ele morreu.

Naquele dia do delegado Vidigal. Era lá pelas 8:00, quando vimos a D20 cheia de homem, tudo em pé, com os fuzís virados para nós.

Nessa hora, era gente atravessando cerca, todos achando que já ia morrer…

O velho Dermino , casado com uma índia, era motorista de Chincha, tinha um “queixo” bom, sai em direção do carro e deu vários conselhos ao delegado… Até ele entender que a terra era mesma dos índios.

Esse del. Vidigal dizia: Não, mas eu quero matar, mesmo! Esse bando de ladrão, nego safado… Esculhambou, mesmo.

Mas Deus foi tão bom, tão bom! Que de lá, eles fizeram a manobra na camionete e seguiu estrada e nós ficamos em paz, até hoje!

Ele era muito ignorante. Tudo pra ele era pra matar.

Se eu sou o cacique e porque o pessoal gosta de mim. Graças a Deus, meus índios não tem raiva de mim. Os tratos são só para fazer o bem. Tudo tranquilo.

Aqui, na minha casa não falta gente.

Eu vivo aqui na ilha do Calabouço tranquilo, sem aquele enxame de gente, mais os animais!

Os animais tudo solto, a gente cuidando… Aqui tem muito juriti, preá, rapousa, o guará, capivara, jacaré…

Eu não deixo o povo ficar matando. Chega aqui um cabra com espingarda e eu vou espiar o que é. Não deixo de jeito nenhum.

O bichinho ta vivendo às custas dele,aí chega o cabra e mata por nada?! Não ta certo, não!

Agora, se tiver na necessidade…

Eu tive 5 filhos e sustentava eles com a pesca. Eu não vendia meu dia pra roça dos outros, não! Eu saía domingo pra pescar e só voltava sábado. Aí, ia pra rua, pois era dia de feira, e Meu dobrava de novo, eu mais outro colega.

Tinha semana que eu voltava com 14 surubim da minha altura. Tão grande que parecia um homem. Uns 9 palmos e chegava até 60 kilos. Dava trabalho pra botar dentro da canoa.

Faz uns oito pra nove anos que eu nunca mais vi esse peixe nem ouvi falar dele.

Ainda hoje tem muito pescador nas beiradas desse rio, mas no açougue em Cabrobó, não se vê mais não. Antes era fartura, agora só dá pra comer.

Seu Quinca

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2 COMENTÁRIOS

  1. Passei por aqui e quis deixar um texto meu para os amigos:

    Um pé na virtude, outro pé no pecado

    Andei do lado escuro das luas para ter o prazer de negar a supremacia da luz. Os melhores espíritos estavam no limite, com um pé na virtude e outro pé no pecado. O Sol é tão claro que não nos permite ver-mos outras belezas. Os espelhos confundem por mostrar demais. O que é claro é enfadonho; o que é escuro é misterioso e fascina. À noite posso ver a lua com mais poesia e menos ciência e toda beleza que eu extraio das estrelas necessita o seu quinhão de trevas.
    Não quero parecer-me um poetóide contemplativo soltando loas ao “sorriso das estrelas e a beleza prateada da lua”. Vôo mais além. Busco a beleza plástica e por vezes já andei corrigindo o cenário. Eu vejo defeito no pedacinho de Universo que me é permitido enxergar. Vez por outra transfiro estrelas de um lugar para outro, imagino a lua com outras cores e corrijo o excesso de nuvens em algum lugar da pintura. Longe de mim dizer que Deus é um mau criador (embora eu tenha restrições em relação ao gambá e ao sapo), mas não é justo Ele nos apresentar o mesmo belo e enfadonho espetáculo milhões de vezes, enquanto Ele pode viajar para alfa do centauro e contemplar outras paragens. Já me cansei de ouvir o trovão depois de contemplar o relâmpago. O Universo e suas leis repetem a mesma ladainha de sempre, os mesmos compassos, a mesma cantilena, e o refrão só atesta a sábia observação do profeta: “Debaixo do Sol não há nada novo.”

    Wandecy Medeiros – Folha Patoense

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