Meu pai fazia parte do Conselho tribal, pessoa de confiança do pajé, nas reuniões que buscavam as soluções dos problemas da aldeia. Ele também era agricultor, trabalhava para os fazendeiros que nossas terras tomaram. Mas criou os filhos como pescador e vendedor de peixe na cidade de Colégio. Minha mãe era ceramista; trabalhava no barro: a produção era vendida na feira local.

Contava meu pai que meu avô Manoel Nunes trabalhava como agricultor nas propriedades dos posseiros, ocupantes da terra indígena, nos atuais municípios de Porto Real do Colégio e São Braz. Os posseiros eram filhos dos antigos arrendatários das terras indígenas, da época das Diretorias dos Índios, que logo após a extinção oficial das aldeias pelo governo Imperial foram loteadas e vendidas aos invasores, já pelo governo da República.

Aos índios expropriados, só restou para habitação uma rua estreita na periferia da cidade de Porto Real do Colégio, onde os fazendeiros se deslocavam para contratar mão-de-obra indígena para trabalhar nas fazendas de plantações de algodão, milho, feijão, arroz nas propriedades das terras alagadas.

O meu avô trabalhava com os indígenas justamente na limpa da lavoura de legumes, com um salário de fome, insuficiente para o sustento da família. Minha avó Júlia trabalhava como meeira nas lagoas de plantação de arroz, onde os proprietários chamavam os índios para aceitarem o contrato de ficar com a metade da produção no final da safra. O dono da lagoa cedia às mulheres a propriedade para plantar arroz, sem ganhar salário. O pagamento era dar a metade da safra e o trabalho para as índias; o proprietário ficava com a outra metade da produção sem o trabalho, despesa alguma com o arroz; só o uso da terra pelos índios; dava direito ao dono da lagoa a 50% do lucro a custo zero. As índias e as crianças ajudavam as mães: sobravam 50% da produção com as despesas e o trabalho.

Minha mãe contava que Euclides, meu avô, trabalhava também como agricultor, mas só que era nas terras de vazante do rio São Francisco. As terras de vazante eram aquelas de solo úmido, onde os proprietários também usavam a mão-de-obra barata dos índios no cultivo de mandioca, abóbora, milho e batata. Mas Euclides, além de agricultor, era pescador experiente: possuía a canoa de pesca e os utensílios da profissão.

Quando era três e meia da madrugada, ele ia ao rio São Francisco pescar os covos para pegar camarão. Ao longo da pesca, continuava com a tarrafa lanceando na pesca de outros peixes: curumatá, piau, lambiá e piranha. Logo após a pescaria, ele retornava para casa com o balaio cheio de peixe, às cinco horas da manhã.

A família arrodeava o balaio para ajudar a tratar os peixes que seriam salgados na gamela; os peixes graúdos eram tirados para a alimentação do dia. Na vazante, ele ia após o café; colocava a enxada nas costas e saía para o trabalho, levando uma cabaça d’água e Jurandir, seu filho mais velho, para ajudar no orçamento familiar.

Maria Pureza, minha avó por parte de mãe, era ceramista; trabalhava em casa, como todas da profissão. Na aldeia, quando uma mãe de família não plantava arroz de meia, a alternativa foi sempre o trabalho com barro. Pureza fazia pote, panela e frigideira na própria casa onde morava, que servia de residência e olaria. As meninas da casa aprendiam com a mãe a arte, para ajudarem o marido a criar os filhos.

Minha mãe, filha mais velha, ajudava minha avó, que lhe passou o segredo da cerâmica; quando se casou, sabia todo o manejo da palhete do coité. Ela contava que viajou muito mais o meu avô Euclides; carregava a louça queimada no forno para a canoa grande de Cícero Catingueira, um branco da cidade; subia ao sertão pelo rio São Francisco vendendo potes e panelas pelas cidades e povoados até o município de Pão de Açúcar.

Na volta trazia farinha, peru, galinha e dinheiro, após uma semana fora de casa. Quando a canoa chegava ao porto defronte a aldeia encalhava; meu avô descia e mandava mamãe chamar as irmãs em casa para ajudar a levar a bagagem; era uma grande alegria, porque todos agora iam ter comida em fartura para os próximos dias.

Mamãe ajuntava, no canto, um cento de potes por semana de trabalho; quando estava com uma fornada pronta, com cerca de 250 objetos diversos, começava meu pai a comprar a lenha para efetivar a queima. O cacique Otávio, que tinha um forno, era sempre o que queimava a louça após fazer a arrumação. Começavam a vir os cambistas (compradores) da cidade, o sr. Manoel de Bilé e a sra. Bina, não-índios, e o dinheiro da produção era pago na hora da entrega.

Minha mãe Lurdes pegava o dinheiro e apresentava a papai para ver o que ia fazer, mas geralmente ele mandava ela comprar umas roupinhas para nós ou alguma coisa que necessitasse. Ela começava de novo a fazer o mesmo trabalho de cerâmica. Tinha índio que descia a Penedo, Piassabuçu e Brejo Grande para vender louça de barro. Mamãe mandava uns objetos. A canoa encostava e começavam a embarcar a cerâmica: homens, mulheres e crianças ajudavam no carrego.

Mamãe também sabia fazer lingüiça, que aprendeu com minha avó Pureza. A corda era repleta do produto; tirava para a alimentação do pessoal da casa e a outra parte vendia aqui mesmo, a quem viesse comprar.

Ela me contava, que muitos anos antes da fundação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, as coisas eram muito mais difíceis para os índios. Os brancos da cidade, principalmente a polícia, perseguiam os indígenas, proibindo de dançar o Toré na rua em que moravam. À noite, um pessoal que não sei o nome, chegava na rua dos Índios e mandava que nossos parentes fossem dormir cedo, às seis horas. Não podiam ouvir choro de menino.

Esse pessoal era malvado, espancava índios com chibata, montava no índio (homem) como se fosse animal, com esporas nos pés e feriam aqueles que não tinham quem os acudisse. Certa vez os índios estavam reunidos debaixo de um pé de juazeiro e começaram a dançar o Toré; entre eles havia alguns brancos da cidade observando o fato. No momento da dança em movimento, o índio Pedro Tinga pisou no pé duma mulher branca sem querer e ela caiu fazendo cenas de drama.

Alguém foi dar queixa às autoridades locais; a polícia chegou, acabou com as danças, pegou o índio Pedro Tinga e começou a espancar desde a rua até a delegacia. Arrastaram pelo chão. Os outros índios não puderam fazer nada; não tinham proteção. Ficavam temerosos porque ninguém estava do seu lado. Os índios vieram a ter algum respeito após a fundação do Posto, em 1944.

Meu pai Alírio era conhecido por Peixe Caro pelos brancos da cidade. Quando era de madrugada saía para a margem do rio, a esperar os pescadores chegarem nas canoas; uns eram daqui da cidade; outros moravam no povoado Tibiri e de São Brás. No porto encostavam as embarcações; os balaios eram cheios para levar para casa, começar a negociar o peixe pelo tamanho e qualidade; nessa hora eu acordava com as teimas de vendedor e comprador. Depois do acerto eles iam embora.

Mamãe acordava para fazer o café da manhã e eu ia olhar os peixes. Tinha piranha, aragú, curumatá, dourado, sarapó, curvina, bagre, niquin, piau. A sala estava repleta de peixe. Após o café, meu pai pegava um balaio cheio. Ia vender pelas ruas da cidade. Quando acabava ele retornava para casa, para levar outro carrego. O peixe que ficava e não era vendido seco, era tratado e salgado em gamelas para vender aos matutos do interior que vinham à cidade para a feira, na sexta.

Na quinta-feira, papai matava porco para vender na estação ferroviária aos funcionários da Rede e para receber quando saísse o pagamento. Nossa casa tinha fartura; papai sempre andava com dinheiro no bolso e não deixava nada faltar: o alimento, a roupa, o remédio, tudo que uma casa precisava e a sua família.

Meu pai era uma pessoa alegre, gostava de rir. Pegava as crianças e começava a brincar; colocava eu e meu irmão no braço, cantava e pulava. Corria e bulia com os meninos na aldeia. Às vezes dizia: “menino que anda nu, eu capo!” Os meninos saiam correndo sorrindo. As mães diziam: “o que é isso?”. Eles diziam: “é o tio Olire; diz que vai capar!” Elas diziam: “é não; ele só tá brincando!”

Quando meu pai vinha da cidade, trazia banana, bala e bagana após vender o peixe. As crianças diziam: “tio Olire, me dê uma banana!” Ele nunca negava; às vezes, até os adultos. Nosso estilo de vida era mais ou menos; meu pai era um batalhador pelo pão nosso de cada dia. Quando ele ia na rua Dr. Clementino do Monte, de frente ao rio, na bodega do seu Joaquim comprar qualquer coisa, eu escapulia atrás dele; quando ele chegava lá, eu chegava também. Ele dizia: “o que é que você quer, José?” Eu dizia: “aquelas cocadas”; ele comprava, me dava e eu saía correndo para casa.

Minha mãe dizia: “já foi atrás de seu pai? Quando nós for almoçá, você nem belisca o comer!” Nessa hora papai chegava e minha mãe dizia: “mas rapaz, você comprou de novo cocada para esse menino!” Ele dizia: “comprei, ele gosta!” Ele era aquele pai que atendia os filhos no que precisassem: carinho, amor, só gritava: essa era a pisa que ele nos dava em caso de desobediência.

Para criar os filhos, Alírio começava a andar pelas ruas da cidade, com um balaio de peixe, aproximadamente 60 kg de peso na cabeça, gritando: “olha o peixe!” Toda vez que alguém queria comprar, ele tinha que colocar esforçando a carga em baixo. Quando era no verão, aquele calor do sol ele suportava nos paralelepípedos das ruas. Aquele peso diário era rotina só para ver a família numa boa. No inverno, período das chuvas, não parava essa profissão; nunca tinha férias nem frio e nem calor. Toda a cidade o conhecia como um bom pai de família; sua freguesia abrangia todas as classes da sociedade colegiense; foi respeitado do menino ao mais velho.

Na época que as lagoas Comprida, Grande, Coité ficavam cheias, o peixe era abundante; o dono prendia o peixe no viveiro. De madrugada começavam a bater na porta. Diziam: “seu Liro, seu Tojal está chamando”. Era o empregado da Lagoa Grande. Ele acordava ainda escuro; os cachorros começavam a latir e ele saía para a porta d’água: “Tojal, oi eu!” Ele dizia: “o peixe tá aí; quantos quilos vai querer hoje?” Papai respondia: “vou querer uns 200 quilos”. Seu Tojal dizia: “só isso?” Papai rebatia: “sim, eu sou só; vou dar três viagens para casa com esse peixe para começar a vida”. O sol começava a raiar; quando eu acordava, em cima da mesa já estava o que seria para o almoço.Nhenety Kariri-Xocó.

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