Minhas lembranças

A lembrança mais remota que tenho no entendimento é de quando eu era criança, chorando numa rede. Mamãe pegou-me nos braços e me colocou no chão: saí caminhando, começava a brincar. Outra vez, ainda me lembro, foi na casa de meu avô Euclides: ele estava deitado e doente. Eu ficava no quarto e ele se assentava. Minha avó Pureza lhe dava mingau no prato e ele começava a comer. No corredor da casa tinha uma canoa de pesca que estava encostada que o pescador não mais usava: remo, cuia e uma tarrafa. Quando Euclides morreu em 1966, eu tinha três anos de idade.

A casa onde eu morava já era de telha e taipa, bem vizinha à nossa escola da aldeia, construída desde o tempo do SPI; na frente, do outro lado da rua, era a casa de Analbertino, homem já velho na idade; era filho de Inocêncio Pires, tio de minha avó Júlia. Encostado, morava o cacique Otávio, irmão do pajé Francisquinho. No canto do quintal existia uma ingazeira, em cuja sombra eu brincava com meus dois irmãos: Lurdinha e Antônio, ambos surdos e mudos.

Segundo história de Antônio Nunes, irmão de meu pai, embaixo dessa velha Ingazeira, em 1944, Otávio foi escolhido pela comunidade indígena para ser o cacique tribal. Ainda no quintal, existia um velho pé de jenipapo no qual pousavam pássaros: vim-vim, bem-te-vi, assanhaço, pintassilgo, entre outros. Os meus pais foram, na minha infância, os primeiros educadores na formação de minha conduta perante os mais velhos, comunidade indígena e família. Mas na minha vida de criança, o cacique Otávio Queiroz Nidé instruiu-me no conhecimento tradicional de nosso povo indígena, cultura, costumes e organização tribal.

Meu avô paterno havia morrido, mesmo muito antes de eu nascer; o avô materno morreu quando eu só tinha três anos. Otávio foi para mim como o avô que conheci e me ensinou, antes mesmo de freqüentar a escola indígena que ficava ao lado da minha casa. Aprendi que devemos imitar os mais velhos para a cultura continuar; ouvir as histórias para um dia contar, fazer arcos, flechas, o jereré.

Quando eu ia a sua casa ou ele ia na minha, eu perguntava sobre as coisas. O jenipapo… O fruto maduro serve para comer… Isso eu fiquei sabendo pela minha mãe, mas o Otávio me ensinou que o fruto verde do jenipapo ralado, espremido o bagaço, dava uma tinta escura preta azulada com que os antigos se pintavam. O caldo escorrido era colocado no fogo numa panela de barro só para mornar; tirava o caldo do fogo e deixava de molho uma noite: pronto para ser usado no corpo. Uma vez fiz para aprender; passaram-se muitos dias para sair a tintura do corpo. Só saiu com o passar do tempo, não continuando a renovar os traços.

Como aconteceu em Sergipe com os Xocó, as aldeias indígenas foram extintas legalmente em Alagoas no ano de 1873. A expropriação levou, ao longo dos anos, a população indígena a se fixar em Porto Real do Colégio, numa rua da periferia da cidade, perpendicular ao rio São Francisco. A aldeia dos índios situada na rua da cidade de Porto Real do Colégio foi o cenário da história da vida em comunidade de nosso povo sofrido, junto com o Ouricuri, unindo a todos na preservação de nossas crenças, costumes e cultura.

Eis a aldeia segundo a tradição dos velhos: casas de taipa cobertas de palha, rua de terra batida, arvoredos de pés de ingazeiras em cujas sombras existiam pilões, também pontos de reuniões, conversas. Meninos nus, descalços, brincando; índias trabalhando na cerâmica utilitária, homens chegando da pescaria.

Nesse meio foram criados meus pais; num sentimento de amor cresceram juntos, com a perspectiva de fundar uma nova família. Em 1941 casaram-se Maria de Lurdes e Alírio, meus pais. Numa casinha de palha também foram morar: uma cama de vara, fogo de lenha no chão, vasilhames de barro, potes e pratos, todos feitos pelas mãos de minha mãe, completavam a arrumação, juntamente com os artifícios de pesca trabalhados por meu pai: jereré, kuvú, tarrafa e puçá.

A família é a unidade do povo, mas a riqueza da comunidade não é o poder econômico do casal. Grande número de filhos constitui a maior fortuna e respeito na posição social. Na reunião da comunidade, aquele que tem muita parentela é ouvido quando fala, considerado e admirado por todos. Meus pais tiveram dez filhos, mas por destino da vida só sete sobreviveram.
Nhenety Kariri-Xocó.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Nhenety Kariri-Xocó,

    Foi muito significante para mim ler algo que sempre me questionava sobre referência dada aos familiares surdos.

    Não é comum na comunidade que eu paticipo os irmãos dar referência que tem um irmão surdo, mas vi com um olhar de aceitação e dignidade em sua colocação: … No canto do quintal existia uma ingazeira, em cuja sombra eu brincava com meus dois irmãos: Lurdinha e Antônio, ambos surdos e mudos.

    Continue a escrever, estou pesquisando sobre índio surdo e o que existe de registros e autores de livros e pesquisas sobre indios surdos nas aldeias indigenas.

    Se tiver algo mais por favor postar aqui.

    Shirley Vilhalva

  2. Olá!
    Estou compartilhando artigo (PDF) e agradeço ao site constar as respostas de minha pesquisa:

    Quais são as produções acadêmicas sobre indios surdos no Brasil?

    Veja na integra:

    http://www.cfh. ufsc.br/abho4sul /pdf/Shirley% 20Vilhalva. pdf

    Abraços,

    Shirley Vilhalva

  3. sou piloto agricola em rio brilhante ms e tenho meu sobre nome de vilhalva gostaria de saber mas da história dessa fámilia obr.

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