Na década de 60

Na década de 60, interromperam as águas dos rios, impedindo os rios de descerem. Acabaram com o rio que cortava a Aldeia, acabou a cana-de-açúcar, a verdura, as frutas. Depois colocaram as linhas de alta tensão nas Serras e, em 72, choveu muito e a areia que tiraram desceu e aterrou nossa lavoura, destruiu dois engenhos, ainda hoje estamos lutando pela indenização.

As verbas destinadas aos benefícios da comunidade são usufruídas por políticos. Tem muitos recursos para a gente e quase absolutamente todos são desviados. Muito se investe em gerar violência, briga entre índios e entre aldeias para facilitar mais os funcionários a roubarem.

Hoje em dia nossas lideranças não têm representatividade, não vieram do tronco de nossos costumes, não são válidas nem para nós nem para os próprios Encantados. As lideranças foram indicadas pela Funai. No segredo de nossa religião se sabe, os Encantados sabem quem é o verdadeiro Cacique, sabem que eu represento ele.

A gente não escolhe as lideranças da Funai, todos são indicados políticos, sem nenhuma participação nossa, eles só nos dão os cargos baixos porque nos acham incapazes.

O Procurador da República me diz que eu sou um índio esclarecido e passível de ser processado pelas minhas atitudes políticas. Ele quis me dizer que por ser esclarecido eu não sou índio! Nem Deus rasga a identidade do índio, mas os poderosos nos humilham, querem rasgar nossa história. Lembrem de Porto Seguro, em abril de 2000, ninguém foi punido! Vivemos não reconhecidos, nÂ’uma situação totalmente humilhante, baixando a cabeça para o governo, parece que não fazemos parte da história do Brasil. Já fomos mais de seis milhões de índios, hoje só um pouco mais de 300 mil.

Zé Índio

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