Pela necessidades de agrupamento, os indígenas se reuniam ao redor do fogo, para discutir seus problemas, falarem da criação do mundo, das caçadas, da pesca, das tradições dos antepassados deram origem a tribo como povo. Quando os índios Kariri-Xocó ocuparam a Fazenda Modelo em 31 de outubro de 1978, os homens fizeram piquete no portão de entrada da aldeia. Acenderam logo uma fogueira debaixo do pé da canafístula, ali ficavam a noite e o dia, fazendo vigilância para dar segurança a tribo. Naquele fogo faziam café, assavam carne e peixe da Lagoa Comprida, dali sai histórias dos tempos passados, do presente para garantir o futuro. Nossa tribo tinha grandes Contadores de Histórias: Joaquim Fumaça, Velho Gringo, Manoel Iraminon, Otávio Nidé, Francisco Suíra, Candará, Antônio Preto, Cícero Irêcê e Júlio Queiroz. Cada Contador de História tinha sua especialidade, Joaquim Fumaça falavam do Tempo do Rei, dos engenhos de cana-de-açúcar, de príncipes, de feiticeiros, assombrações, de Lobisomens, dos viajantes e tropeiros. O Velho Gringo contava de valentia dos Cangaceiros de Lampião, de Corisco, Polícia Volante, dos Valentões do Sertão, das espertezas de João Grilo, de Zé Bico Doce, dos Coronéis da região. Manoel Iraminon, conhecia o órgão S.P.I., dos fazendeiros do sertão e do litoral, da Revolução de 1930, da Intendência de Colégio, do sertanejo pobre, dos vaqueiros na lida do gado, histórias de mistérios, das festas do interior. O Cacique Otávio Nidé, conhecedor das Leis da Tradição, falava das genealogias tribal, dos pajés, do Conselho Tribal, do Cemitério Sagrado, onde enterrava os mortos em igaçabas, conhecia os segredos do rio, da Mãe Dágua, do Negro Dágua, do Fogo Fátuo, falava das trovoadas, dos raios, da chegada do inverno, da seca do verão. O Pajé Francisco Suíra nosso Chefe espiritual, comandava o Ritual do Ouricuri, da Cura dos Doentes, conhecia espíritos dos brancos, que na sua casa chegava, feitiços dos bruxos, olhos malignos da inveja, das doenças e fartura. Candará é um caçador da mata, este índio imita pássaros, animais de pelo, conhecia rastro de teiú, da capivara, do veado, sabia onde dormia o gato-do-mato, sobressaía da esperteza da raposa, tem um conhecimento vasto da fauna e flora. Antônio Preto era uma pessoa mateiro, trabalhava em madeira, remédio de raiz de pau, fazia girau de cipó, casa de pau-a-pique, choupana de taipa, trabalhou em engenhos velho, sofreu tanto de fazer dó. O Cacique Cícero Irêcê, comandou a entrada da Fazenda Modelo, conhece as histórias das tribos do São Francisco, dos Kariri, Natu, Romarís, Xocó, Aramuru, Karapotó, Aconãs e Tupinambás, um conhecedor das relações com o Governo Federal, FUNAI , ministérios e órgãos públicos. Julho Queiroz filho do Pajé Suíra, cantava toré e rojões, nas atividades de mutirão, fazendo tapamento de casa, limpando a terra para o plantio, de feijão e milho. Ao redor da fogueira saiam muitas histórias bonitas, de angústias que passamos, das injustiças da política indigenista, da invasões de nossa terra, dos fazendeiros poderosos, da exploração da mão-de-obra barata, do sofrimento do povo. Da histórias da fogueira saiu muitas soluções importantes, reconquistamos nossas terras, conservamos a tradição oral, a cultura preservamos, cantos e danças do toré, que agora podemos mostrar. Nhenety Kariri-Xocó.

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