Quem acompanhou a trajetória de Aline Tuxá se surpreende com sua história de superação e garra, ao encarar um curso de saúde concorrido, caro, almejado e historicamente dominado pelos burgueses ou “brancos”. A estudante indígena da cidade de Rodelas na Bahia, não mediu esforços ao ser aprovada no curso de odontologia da Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, em 2007.Aline Cruz com muita humildade e determinação, venceu todos os obstáculos dentro e forma da universidade com muito protagonismo, persistência e apoio incondicional dos seus pais, que resultou na concretização do primeiro passo rumo a  realização do grande sonho de se tornar uma cirurgiã – dentista reconhecida profissionalmente, especialista em implantes dentário, atuante e segura das suas ações dentro e fora da comunidade indígena a que pertence.

Aline Cruz é a primeira mulher indígena de etnia Tuxá, a se formar em odontologia pela UEFS.

Pensar na vitória de Aline Cruz é refletir na visível aproximação do sonho dos estudantes indígenas de todo o Brasil, em adentrar as portas antes fechadas dos meios encontrados pelo ensino superior, que podem permitir a todos, a conquista da sua “estabilidade” e cidadania nesse mundo capitalista que definitivamente está de forma impositiva e desafiadora, chamando os estudantes indígenas a se superar, lutar e conquistar seu espaço nos dois mundos, o étnico e o ocidental. Durante séculos os cursos da área de saúde, foram dominados por uma pequena parcela da população brasileira, ao vencer o desafio de passar no vestibular da UEFS, que não oferece uma prova específica para os indígenas, a estudante provou que é capaz não só de passar no vestibular, como também de atender e acompanhar o cronograma do curso com uma produção e desempenho, que não deixou a desejar em nada, chegando até a superar muitos dos seus colegas que tiveram acesso a uma escola privada.

Aline Cruz é hoje uma estudante indígena a frente do seu tempo, já que a mesma além de ter correspondido a todos os pré-requisitos do curso de odontologia da UEFS, fez especialização e estágios práticos que a deixaram completamente segura para atuar em qualquer contexto, seja este indígena ou não. Correspondendo a sua formação e atuação, o Trabalho de Conclusão de Curso de Aline Cruz foi aprovada no mês de março de 2012, sua pesquisa obteve uma nota excelente, correspondendo a sua trajetória de luta e superação de todas as barreiras apresentadas pelo curso e pelos desafios que o quotidiano de uma universidade pública conceituada apresenta.

Aline Cruz não sofreu nenhuma discriminação por parte dos seus colegas do curso por ser atuante, verdadeira com seus princípios, com sua dinâmica de vida e sua formação educacional dentro e fora da comunidade Tuxá.

Cada etapa superada pela estudante irá influenciar significativamente na sua carreira profissional, no atendimento odontológico da sua comunidade Tuxá, bem como na intensificação da autoconfiança de muitos estudantes indígenas que já fazem parte do mundo acadêmico e de outros que estão batalhando incansavelmente por uma vaga nas universidades do Brasil, já que muitos indígenas são perseguidos e violentamente atacados pelos estereótipos que os atingem de forma negativa chegando em alguns casos a causar o abandono de muitos das escolas, das universidades, das suas raízes e dos seus objetivos.

Mesmo com tantas dificuldades de acesso, permanência e acompanhamento pedagógico para os estudantes indígenas que sonham em fazer uma graduação, as ações apresentadas pela UEFS, conquistadas pelo movimento dos estudantes indígenas da instituição em parceria com a FUNAI e a Prefeitura de Rodelas, tem contribuído muito, com a inclusão de muitos indígenas da Bahia nos cursos oferecidos pela UEFS, principalmente dos membros da comunidade indígena Tuxá de Rodelas na Bahia, onde muitos estudantes estão ocupando todas as vagas oferecidas na área da saúde. Lembrando que na Universidade Estadual de Feira de Santana já chega o números de 30 estudantes na área da saúde, sendo que 15 fazem odontologia, um número significativo para os povos indígenas do Brasil e para a comunidade de origem desses estudantes.

O investimento, o amor e a dedicação dos pais de Aline Cruz fizeram a diferença, já que os dois de forma incondicional não mediram esforços ao acreditar nas potencialidades da filha que hoje é uma cirurgiã-dentista formada em uma instituição pública conceituada na Bahia e no Brasil.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) criada em 20 de Outubro de 2010, já pode contar com uma parcela significativa de profissionais indígenas capacitados em universidades públicas, que estão investindo de forma intensa, na formação dos estudantes indígenas que estão fazendo valer sua experiência nessas instituições, já que muitos têm como principal meta fortalecer a luta dos grupos indígenas que estão sendo perseguidos e afastados dos seus direitos enquanto cidadãos brasileiros donos originários das terras do Brasil.

A irmã Jaqueline Cruz estudante de Direito também pela UEFS e o seu irmão, também contribuíram muito nos momentos de superação e força que só o amor fraterno é capaz de energizar.

Espera-se que a atenção à saúde dos povos indígenas, agora sob a responsabilidade da Secretaria Especial de Saúde Indígena passe por uma nova fase, onde a criação de programas específicos passem a dar preferência aos estudantes indígenas que estão nas universidades, já que muitos terão maior facilidade de adaptação, acompanhamento, assistência e aprovação integral dos membros das comunidades indígenas de todo Brasil.

Aline Cruz é uma estudante que saiu da universidade com várias propostas de trabalho sendo sondada por um município próxima da cidade de Vitória da Conquista e pela SESAI de Ibotirama na Bahia, pra onde a estudante vai ainda não sabemos, apenas fica aqui o desejo que Tupã dê continuidade a trajetória dessa Tuxá, sinônimo de superação, desempenho, esperança e luta.

Jandair Tuxá

jandairribeiro@hotmail.com

janndayr@gmail.com

Mais imagens de Aline Tuxá agora formada em Odontologia pela Universidade Estadual de Feira de Santana.

A infância de Aline Cruz.

 

Aline Cruz e sua parceira Alana, amizade é tudo quando a recíproca é verdadeira.

 

 

Com a amiga do curso Georgia "Gel" uma irmã que Aline Cruz teve o prazer de conhecer na UEFS.

 

 

Aline Cruz, Georgia, o Prof. Nilton César e Ana Verena.O Professor, Pesquisador Nilton César do Núcleo de Câncer Oral disse:"Encontrar seu lugar, defender seus direitos e lutar incessantemente por respeito foi uma bandeira carregada por Aline, obtendo de nós todos muito respeito e admiração. Atitudes como essas nos fazem ter orgulho das nossas origens. Afinal, somos todos negros, somos todos índios!"
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