O Sol ainda era um menino, o dia mal iniciara e a varanda já recebia os primeiros adornos e aos poucos foi se transfigurando no local de mais uma (não apenas número) reunião do Grupo Tatu Tatu Xamaraka.

Durante os dias que antecederam o dia de hoje, foram lançados os chamados ao Vento, pelos vários cantos da Aldeia Tuxá, regada pelo velho Chico, o OPARA, no Sertão, extremo norte da Bahia. O destinatário da mensagem são os jovens do grupo. Hoje, logo cedo Eduarda Tuxá passou via celular os últimos lembretes, “venha e avise fulana, será as 19h, aqui em casa”.

Passamos parte da tarde fazendo alguns preparativos, comprar o lanche para a reunião, arrumar a varanda, preparando a pauta e eu o Cabeçalho do blog do grupo e o layout. Eduarda também escolhera alguns filmes para serem exibidos durante a reunião, os quais serviram de base para o debate.

Quadros pintados pela anfitriã ocupavam seus espaços nas verdes paredes da varanda. Televisor, Toca-DVD, amplificador, mesa cadeiras e por ultimo tapete, cobrindo a parda cerâmica. Na mesa, os cadernos confeccionados para o ato do dia 08 de agosto, na PUC-SP, o qual denunciou os assassinatos de militantes e lançou o Comite de Defesa Popular e o Jornal PUC Viva, que foram distribuído para cada presente. Na cozinha a anfitriã já havia preparado suco e pipoca e esperava @s demais membr@s do grupo, numa tranquilidade e segurança, com a certeza que responderiam seu chamado.

O Senhor do Dia dava lugar para a Dama da Noite, que fui receber atrás da Igreja, onde pude vê-la refletida nas aguas azuis do Grandioso Opara. Com toda sua magnitude, refletindo a luz do seu irmão, veio redonda iluminar a noite, trazendo tranquilidade e segurança para os seres terrestres. Retornei para a aldeia, me banhei e saí, eram 19h, e a grande surpresa, haviam jovens na varanda, mas a surpresa não foi a presença e sim a pontualidade, que não é comum entre a juventude não indígena de São Paulo, com a qual eu estava habituado e, para além disso, quase tod@s, com pouquíssimas exceções, com colares e cocares, preparad@s para uma reunião indígena, detalhe que me alegrara a alma.

Com tod@s ali, a reunião da juventude Tuxá não poderia iniciar de outra forma se não com dança e cantos tradicionais. O Maracá dava o ritmo, marcado pela pisada forte, a roda começa a girar, da janela, a mãe de Duda Tuxá entoava a música, e tod@s dançando, cantando, como seus ancestrais faziam nestas mesmas terras há milhares de anos.

Terminado a tradicional abertura da reunião, deu-se continuidade a pauta, com apresentação de cada presente e Eduarda Tuxá apresentou os objetivos do Grupo Tatu Tatu Xamaraka, falando dos desafios que tod@s teriam de enfrentar, as demandas da aldeia, possíveis atividades e após tod@s puderam falar de seus anseios. O primeiro filme colocado para iniciar o debate foi Pajerama, animação de pouco mais de 9 minutos de duração, que tem tudo a ver com a realidade de mais da metade da população indígena “brasileira” que, os que não foram para a cidade, a cidade foi até ela. E assim vive o povo Tuxá, que só tem uma cancela separando a aldeia da cidade.

@s jovens Tuxá debateram seus anseios, percepções e apontaram alguns problemas enfrentados: a falta de terra após a inundação provocada pela Hidrelétrica de Paulo Afonso; a dificuldade de acesso ao Rio São Francisco pela Aldeia; a degradação de uma área, chamada de Surubabel (Zorobabel) , onde segundo os mais velhos, foi o local de origem do povo Tuxá; a discriminação de suas crenças e cultos religiosos, principalmente pelos adeptos as igrejas protestantes; a falta de informação sobre a história de seu povo, etc.

Depois foi exibido o curta “A sombra de um delírio verde”, que mostra a exploração da mão de obra indígena pelas usinas de etanol, as mesmas que invadiram as terras indígenas, expulsando-os para as reservas e margens de rodovias no Mato Grosso do Sul. O filme contribuiu para a reflexão dos jovens e que apesar de transparecer de outra forma, evidencias apontam que os problemas enfrentados pelos povos indígenas em qualquer parte do mundo tem a mesma origem, ou seja, temos que superar o Estado e derrotar o capitalismo, que aterroriza, dizima povos, causa dor e sofrimento a humanidade, destrói a natureza, tudo pelo acumulo de riquezas, falsas riquezas, pois a verdadeira riqueza é a própria harmonia e os recursos naturais que podemos usufruir sem destruir a Mãe Terra.

A noite já não é jovem e infelizmente o encontro chegara ao fim, mais dança para finalizar e a fotografia para prosperidade. Eu não estarei para o próximo encontro do grupo, mas ele é certo.

Veja o blog  http://xamaraka.wordpress.com/

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militante do Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus

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