Na nossa civilização, existem as mais variadas formas de organização social, política, e econômica. Cada etnia tem sua própria regra de convivência, de como se relacionar com o meio existente. Possui entre todas as Nações alguns pontos em comum: o convívio harmonioso com a Mãe Natureza, o desapego aos bens materiais, a vontade de continuar perpetuando, a coletividade, a igualdade, a solidariedade, o respeito e o amor ao próximo.

Os conflitos existentes, antes de haver o contato com culturas “importadas”, eram por questões territoriais com grupos de características diferenciadas. Mas também existiam grupos próximos, que viviam harmoniosamente.

O convívio com a Mãe Natureza demonstra a relação do homem com o todo, servindo de guia para o desenvolvimento das atividades exercidas de cada grupo. Nossa economia é baseada na agricultura familiar, tudo o que plantamos e colhemos é para nossa subsistência. Possuímos nosso próprio calendário baseado nas fases lunar. Nossos hábitos alimentares é baseado no cultivo das leguminosas, raízes (tubérculos), folhas e frutos, caça e pesca – sem transformá-los em mercadorias. Com a chegada do “homem branco” nossos hábitos começaram a ser modificados, pois a implantação de outros cultivos e a escassez provocada pela devastação vem causando a destruição do meio ambiente.

A nossa culinária se faz presente nas mesas da maioria dos brasileiros como no uso da farinha de mandioca, do beiju de tapioca, da farinha de puba, do milho, do amendoim, da batata etc.

O conhecimento da matéria-prima, adquirido da sabedoria do nosso povo, é utilizado pelas grandes indústrias farmacêutica e cosmética, dessa forma, os nossos conhecimentos relacionados com a medicina natural têm hoje uma importância para toda humanidade. Porém, muitos destes conhecimentos são retirados de forma violenta e patenteados por essas indústrias.

Nossa forma de organização social também varia de acordo com cada Nação. Não necessariamente todos possuem um chefe (Cacique), a disposição das nossas habitações tradicionais, em forma de círculo – onde estão dispostas as ocas, malocas -, além de promover a proximidade entre os clãs, também é uma forma de proteger todos os membros da comunidade. Hoje, devido as violências sofridas, principalmente entre as Nações que estão em contato há 507 anos, com outras civilizações, as quais tomaram todo o nosso território para torná-lo um objeto de Poder Econômico Financeiro, nossas habitações tradicionais não são mais encontradas em todas as Aldeias.

Ao visitar uma aldeia, é possível se deparar com uma realidade no mínimo desoladora, além da desestruturação de nossas famílias, somos obrigados a viver distantes um dos outros, em habitações inadequadas, às vezes, com cobertura de plástico ofertado por alguém.

Outros Povos são confinados em Parques e Reservas (delimitados) onde são transformados em objeto de admiração para o bel prazer de grupos formados a partir das mais variadas necessidades: ou de exploração, ou curiosidade, ou como material de pesquisa. Mercê das políticas implantadas pela cultura do “homem branco”, que não atendem nossas necessidades reais, somos obrigados a adequar uma realidade que não faz parte do nosso contexto. Acreditamos que tudo deve seguir seu curso natural de evolução.

Atualmente, somos subjugados através das leis que regem interesses mercantilistas de um sistema pervertido da essência humana.

Desde pequenos, somos orientados a participar de todas as atividades implantadas de acordo com as necessidades de cada grupo. Todas as fases evolutivas do SER são respeitadas. Aprendemos a importância colaborativa de participarmos de cada processo criado para dar continuidade a nossa existência e das futuras gerações. Os ensinamentos são hereditários, ou seja, passados de pais para filhos.

Acreditamos na dualidade, na presença do masculino e feminino, na existência do bem e do mal. Somos espiritualistas.

Todos possuem responsabilidades quanto à condução de nossas estratégias de sobrevivência coletiva. Não há interesses individuais. Existe sim, uma preocupação com o bem-estar de todos.

Nossas crenças espirituais são baseadas na comunicação entre os espíritos dos nossos antepassados, entre o Criador e a Mãe Natureza (sol, lua, estrelas, trovões, relâmpagos, chuva, terra, fogo, água, florestas etc.). Cantamos e dançamos reverenciando todos os elementos naturais que nos cercam – forma utilizada para agradecer tudo que possuímos.

Entendemos que nosso direito de continuar participando deste grande projeto natural está relacionado com a forma de interagirmos com o meio. Se cuidamos e preservamos, agradecemos tudo que nos é ofertado e continuamos com o direito de ter nossa própria vida.

Vivemos um equívoco criado por outras civilizações, o qual nos toma como selvagens, sem alma, sem sabedoria, sem capacidade de conduzir nossas diretrizes de vivência. Fomos mistificados. Descaracterizaram uma raça que sempre foi capaz de conduzir seus próprios caminhos.

Além da nossa sabedoria milenar, hoje, por meio da nossa presença em Universidades, Faculdades e Escolas de nível fundamental e médio, buscando informações necessárias para continuarmos lutando pelos nossos direitos, mostramos também que somos capazes de adequar os conhecimentos de outras culturas.

O contato com a cultura do “homem branco” tem causado prejuízos irreparáveis. Atualmente, em várias comunidades existem problemas causados pelo alcoolismo, drogas, “catequização”, capitalismo, corrupção, destruição da fauna e flora, isolamento, mistificação, diminuição ou perda total do território, fome e miséria.

Foi implantado um mito: o de que somos preguiçosos, ladrões de terras e selvagens. Tudo isso com o objetivo de nos afastar cada vez mais da humanidade como um todo, com a única intenção de nos integrar a sociedade “civilizada”, a sociedade “pseudo-européia”, tirando de uma vez por todas o pouco do nosso território que ainda nos resta. E para aqueles que perderam tudo, tirando a possibilidade de recuperar o que foi roubado.

Sabemos da existência de pessoas que, apesar da cultura ser diferente da nossa, tem a compreensão de que temos o direito de continuar vivendo em nosso território de origem e que temos muito para contribuir com a humanidade.

Atualmente, nos bastidores do governo existem pilhas de processos demarcatórios engavetados, bem como o nosso Estatuto. Ao contrário de resolver nossas pendências, até como forma de reparação (palavra cujo uso está em moda e que infelizmente ainda não fomos inseridos nesse uso) os legisladores dão preferência à formulação e criação de mecanismos, emendas e decretos que favorecem a permanência dos fazendeiros latifundiários em nosso solo sagrado para a implantação do agronegócio. Este se trata de mais uma forma criada para se ganhar mais através da destruição do solo, do desmatamento, transformando-o em deserto verde, que antes servia de abrigo para a biodiversidade.

YAKUY TUPINAMBÁ

Auere!
Yakuy Tupinambá
yakuy@indiosonline.org.br

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