VEIGA, Juracilda e D’ ANGELIS, Wilmar da Rocha (Orgs.). Escola indígena,
identidade étnica e autonomia.

AUTONOMIA, PARA A GENTE, É TER UMA ESCOLA COM NOSSO
PRÓPRIO PENSAMENTO*

ISAAC DA SILVA PIANTA (OPIAC)

Bom dia. Eu sou o professor Isaac, eu sou do povo Ashaninka – bem distante, do sul do Acre – e represento uma organização dos professores indígenas do Acre, que foi criada esse ano. Mas eu aqui não vou falar como representante da organização, mas sim, queria falar mais como professor em sala de aula, dentro da minha comunidade, em cima da questão do Projeto Político Pedagógico e da autonomia e o que eu acho que é autonomia para uma escola, para uma comunidade, para uma terra indígena, para um povo indígena. E antes de começar a falar a respeito da minha experiência como professor, eu queria
mostrar um pouquinho de um vídeo, aonde está um parente trabalhando e falando quais as lições fora da sala de aula. [exibição de vídeo].
Então, durante esses dias de congresso, de discussões pelos parentes, eu comecei a observar – não participei, fiquei mais ouvindo – mas eu comecei a observar que, a nossa prática como profissional, como educador, está muito distante ainda da nossa realidade, como professor, como educador. Eu observei que está se discutindo mais uma questão política fora da comunidade e a questão mais prática, do professor, do educador – eu vi alguns companheiros, parentes, comentarem que a dificuldade está de entender a questão da educação, da sua prática – e eu como professor da minha comunidade –vocês puderam observar, no filme, algum trabalho que foi feito durante a minha prática como professor, acompanhar o dia-a-dia da comunidade – prá mim começar a refletir e discutir
com a comunidade a importância da nossa educação que vem desde os nossos
antepassados, apesar de ter sofrido grande consequência, massacre, por pessoas que não entendiam a realidade de um outro povo. E eu diante dessas reflexões que, como professor, comecei a trabalhar, a construir uma política interna dentro da própria comunidade, dentro da escola, junto com os pais. E quando eu comecei a discutir e chamar os pais prá participar, eu comecei a observar que eu não era a única pessoa que ia tirar o meu povo daquela mistura de cultura, desse mundo – como alguém falou que nosso cérebro está contaminado – e essa contaminação, ela é muito prejudicial prá nossa comunidade, para o nosso povo.
Eu lembro que uma vez eu estava na sala de aula quando um pai chegou e falou pra mim: “Eu vou tirar a minha filha da sala de aula, professor, porque ela já está ficando moça, ela tem que aprender a fazer o tecido prá vestir o seu marido; tem que aprender a fazer o paneiro, a cesta…” E eu: “tudo bem, pode tirar”. Então, nesse momento, eu comecei observar que, prá nós Ashaninka, no momento, não é a escrita que vai resolver esse problema. Então, eu comecei a refletir: o que será? Será a escrita mesmo? Será que as pessoas precisam…? Porque, se fosse a escrita, o pai não tinha ido retirar. Se fosse a escrita, a leitura, a escola que fosse resolver o problema, os pais não tinham ido retirar.
Mas antes, os pais falavam assim: “Ah, meu filho tem que aprender a ler e a escrever, então, vai ter que ir prá escola”. Mas, quando eles mesmos começaram a tirar seus filhos da escola prã ir pro roçado, prá ir prá caçada, prá ir prá pescaria, eu comecei a observar que, eu, como professor, não ir ter que tomar esse espaço da minha comunidade. Ao contrário, fortalecer, começar a trabalhar prá que ísso se fortalecesse cada vez mais. Bom, e eu fiquei pensando. Então, começaram a surgir várias questões, discussões, e um outro passo importante foi a questão do calendário escolar. Eu trabalhava três días por semana e os pais começaram a cobrar: “Você tem que trabalhar cinco, seis dias por semana”. Mas sempre vinha acontecendo isso dos pais tirarem seus filhos da escola prá acompanharem no seu trabalho e eu não fazia questão nenhuma. Deixava que fossem. Então eu comecei a chamar os pais prá decidir: “O quê que nós vamos fazer? O quê que é importante nesse momento?”. E começamos a discutir e eu fui incentivando que os pais, que os filhos, que as mães, participassem da escola. Então, nesse momento, eu consegui a trazer coisas da minha cabeça para minha formação, para minha prática como professor, que fizeram com que eu colocasse isso no papel, dentro do currículo de formação dos alunos. E durante a minha prática como professor, a gente estabeleceu um calendário, as disciplinas, os conteúdos de cada disciplina que a gente fosse trabalhar, que a gente trabalha na sala de
aula. Nesse momento, eu preferi que tivesse mais a participação dos pais, na liderança em decidir. Como foi uma decisão da comunidade, eu só cumpri o meu dever de professor, eu só cumpri, de executar todos os pensamentos que eles conseguiram repassar prá mim. Bom, isso foi uma parte do que eu fiz como professor, na sala de aula e dentro da terra indígena Ashaninka.
Quanto à minha formação fora da comunidade, que foi uma outra parte muito
importante na minha carreira, foi no momento em que eu comecei a discutir com outros profissionais, outros professores, comecei a observar que existiam diferenças, não eram todos que eram iguais, e isso serviu para minha experiência, para minha carreira como professor. Bom, e eu comecei a discutir a questão do papel do professor junto com meus parceiros: “O quê que nós devemos fazer como professor? Quais são as nossas responsabilidades como professor?” Cada um fazia a pergunta prá si mesmo: “Quais são as nossas competências como professor? O quê que nós devemos cumprir como professor?” E cada um começou a falar da sua experiência, da responsabilidade que tinha. O que cada um achava que deveria ter para trabalhar na comunidade. Então, essa política nossa fora da comunidade, fora das terras indígenas, entre nós professores indígenas do Acre, ela foi crescendo, ela foi se passando de um para outro. E quando eu falava o quê que nós devemos ter como professor, eu falava em toda essa questão: “Será que nós devemos produzir material didático específico? Será que nós devemos produzir material bilíngue? Onde é que está nossa autonomia, nesse momento?”
Então, tem uma discussão muito grande e a gente conseguiu discutir e afirmar que
autonomia, dentro de todo esse processo educativo, para a gente, é ter uma escola com nosso próprio pensamento. Foi a gente criar esse Projeto Político Pedagógico que envolvia toda essa questão cultural e não-cultural. A gente acha que a autonomia, ela vai acontecer a partir do momento que a comunidade, o professor, souberem diferenciar o que é seu e o que é que não é seu. Aí é que parte o espaço para você ter autonomia. Mas enquanto o professor não tiver este conhecimento, não souber diferenciar, a comunidade não vai ter autonomia e a autonomia também, ela surge a partir do momento que a escola tenha um currículo próprio de formação. Que esse currículo seja pensado pelos professores, pela comunidade, pelo povo. E é a partir daí que a escola vai passar a ter autonomia, autonomia de administrar aquilo que é seu, os seus conhecimentos, a sua sabedoria. Se o professor não conhece e não dá valor àquilo que é do seu povo, àquilo que é da sua cultura, ele ainda está tentando buscar o caminho da
autonomia. E foi isso que nós fizemos no Acre. Alguns povos indígenas, ainda estão, algumas comunidades, a maioria, ainda estão nesse caminho de buscar o quê que é autonomia, ter autonomia na sua escola. Porque, como se falou aqui, existe muita interferência da Secretaria Municipal, Estadual, de chegar e querer aplicar um currículo que não é daquele povo, que vem de fora, que é do branco. E se a comunidade ainda está aceitando, a comunidade não tem ainda autonomia prá administrar a sua escola.
Porque a escola, no nosso ver, ela é um ponto de referência para fortalecer tanto os pensamentos da comunidade como de todo o povo em si.
Eu tenho conversado com alguns alunos, em alguns momentos, perguntando a eles:

“Que competência cada um tem que ter na escrita? Será que nós devemos dominar a escrita ou deixar a escrita nos dominar?” Isso são coisas muito importantes, que eu sempre tenho colocado nas minhas discussões. Porque muitas vezes a gente acha que a competência de lidar com a escrita é saber ler e escrever bem, saber ler correto, saber fazer o discurso correto. Mas prá nós, Ashaninka, não é saber ler e escrever correto; é a gente conhecer o nosso espaço, conhecer a nossa riqueza, conhecer a nossa história do passado, para planejar o futuro. Então, tudo isso faz parte da autonomia. Se você domina tudo isso, você tem autonomia. Porque a escrita, a gente já deu um nome…. que
antes tinha a bala: você entrar no campo, fazer o roçado do patrão, se não fizesse você tinha … tinha que fazer essas coisas, e hoje não, hoje é uma guerra, pode ser uma guerra silenciosa, a escola. Ela pode destruir um povo sem que ele esteja percebendo que está sendo destruído por ela. Se a gente não souber usar a escola, a escrita, a gente pode estar perdido nesse caminho. Pode se perder e pode tirar a identidade de um povo, o conhecimento. Aí está: contaminar – porque eu acho que aí traz o ponto mais forte -, de contaminar o cérebro do ser humano, que pensa diferente do outro. O que eu tenho pra falar é isso.

*Transcrição da exposição oral feita em mesa-redonda, sem revisão do autor. Título atribuído pelos organizadores.

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