Entrevista
Uma entrevista semanal sobre temas relevantes para o Terceiro Setor

As TICs, o Malaui e as mudanças possíveis

As TICs, o Malaui e as mudanças possíveis
Poucos já ouviram falar do Malaui. Esses poucos, provavelmente, apenas conhecem esse pequeno país africano de 11 milhões de habitantes devido à cantora Madonna, que adotou uma criança de lá recentemente. Pobre como boa parte da África, esa nação está buscando soluções para seu desenvolvimento. E as políticas de inclusão digital são uma alternativa.

“O Malaui não possui saída para o mar e sua economia está se erguendo de um período de depressão. Os serviços de TIC têm preços exorbitantes e fora do alcance do homem comum”, diz Kenneth Msiska, um jovem malaui de 25 anos, estudante de engenharia de telecomunicações da Universidade do Malaui. A Rets conversou via email com Msiska sobre a situação de seu país em relação ao acesso às novas tecnologias de informação e comunicação. Ele é coordenador do Caucus de Juventude da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação e também coordenador da Campanha Nacional sobre a Sociedade da Informação, voltada para a Juventude Rural de seu país.

O jovem líder afirma que, de 11 milhões de habitantes, no máximo 52 mil acessam a internet. “Nos últimos tempos, o uso da internet tem sido monopolizado pela elite trabalhadora e lentamente pelos universitários”, lamenta. Diretor de uma ONG local – Young Advocates for the Advancement of ICT-related Development -, Misiska decidiu pôr a mão na massa e levar adiante um projeto de instalação de telecentros em áreas rurais do Malaui, país cercado por Tanzânia, Moçambique e Zâmbia, no sudeste da África.

Ainda em busca de financiamento, o projeto de telecentros comunitários quer ensinar aos malauis, principalmente os do interior, a usar a internet para gerar recursos para suas comunidades, melhorar a própria educação e ainda abordar questões de gênero. Para Msiska, entre os obstáculos a serem superados estão a falta de infra-estrutura da ex-colônia inglesa e a ausência de empreendedorismo dos agricultores. Nada, porém, que o desanime. “Há necessidade de se enfatizar que, quando falamos de TICs, não falamos somente sobre tecnologia, mas também de um propulsor de desenvolvimento. Essa é a mensagem que nossos líderes devem levar consigo”.

Rets – Qual é o tamanho da exclusão digital do Malaui?

Kenneth Msiska – Muito grande! Estamos falando de um país cujos cidadãos são mais bem descritos por viver com U$ 1 por dia. O Malaui não possui saída para o mar e sua economia está se erguendo de um período de depressão. Como você pode imaginar, os serviços de TIC têm preços exorbitantes e fora do alcance do homem comum. Além de serem caras, as TICs não estão disponíveis em qualquer lugar e isso não colabora para o fim do analfabetismo digital. Talvez você também queira saber que em algumas partes do Malui algumas pessoas estão presas em grandes fendas de terra, entre montanhas, e essas áreas geralmente não são lucrativas para investimentos em TICs.

Nos últimos tempos, o uso da internet tem sido monopolizado pela elite trabalhadora e lentamente pelos universitários, especialmente os da Universidade do Malaui e da Universidade de Mzuzu, onde os serviços de internet estão disponíveis a um preço justo para os estudantes. Já estamos buscando formas de ver como podemos, coletivamente (governo e outros atores), levar a internet às pessoas comuns do campo.

Rets – De acordo com o governo, só 52 mil malauis usam a internet. O que pode ser feito para aumentar esse número?

Kenneth Msiska – O Malaui tem uma população de mais de 11 milhões de pessoas e, portanto, 52 mil é uma pequena fração da população em geral. Logo, esse número é mais causa de preocupação do que orgulho. É preciso dizer ainda que o atual cenário pode estar superestimado. Atualmente o governo está trabalhando na Política Nacional de TICs para o Desenvolvimento e na Política de Acesso Universal. Acredito que se essas duas idéias forem bem desenvolvidas e levarem em conta os problemas que temos, poderemos alcançar a tão sonhada mudança na exclusão digital. É preciso destacar, porém, que podemos até ter bons documentos políticos, mas, se esses “tigres de papel” não forem somados ao apoio necessário, eles vão cair.

Quando todos se conectarem à internet, algumas coisas surgirão e esses são os pilares sobre os quais o uso deve estar. Eles incluem, mas não se limitam à expertise, disponibilização de hardware e computadores, atenção, eletricidade ou fonte de energia alternativa na área em questão. A prioridade é fazer com que os recursos mencionados estejam disponíveis o mais rápido possível.

Um conselho para o governo e os vários ativistas que trabalham nesse setor no Malaui é que há necessidade de listar os males da sociedade da informação com cuidado. O perigo é: podemos nos satisfazer ao empoderar um grupo apenas enquanto outros se enfraquecem ainda mais. Por exemplo: há necessidade de considerar esses grupos mais fracos, como as mulheres e as pessoas com deficiência, para só citar alguns, quando fazemos o trabalho de inclusão digital para que não fiquem ainda mais excluídos. Isso pode ser feito apenas se iniciativas especiais forem desenhadas para atender as preocupações imediatas de grupos desprivilegiados na sociedade, que estão a milhas de distância dos demais.

Um lado positivo é que há muitas iniciativas sem fins de lucro no setor e isso pode dar conta de grandes partes de nossa sociedade da informação.

Rets – Seu projeto pretende diminuir a exclusão digital construindo telecentros e treinando as pessoas a usá-los. De que forma um telecentro pode influenciar a vida de um típico malaui?

Kenneth Msiska – Já se foi o tempo em que as TICs eram vistas apenas como tecnologia. As TICs possuem o poder de provocar mudanças sociais em comunidades. O projeto de telecentros da comunidade que estamos propondo é uma forma de deixar a comunidade decidir como as TICs, agora como um “possibilitador”, devem se encaixar às suas necessidades. Basicamente, os telecentros darão treinamento para membros da comunidade, serviços de comunicação, atividades em rede para grupos de pessoas, como agricultores, estudantes, assistentes sociais etc. Os benefícios que o telecentro pode trazer, portanto, são: ligar agricultores a mercados, dar recursos vitais a estudantes, criar um espaço para treinar e retreinar trabalhadores da área de desenvolvimento, permitir o empoderamento de grupos de mulheres (que poderão anunciar seus produtos, serviços etc.). Grande parte das atividades serão iniciadas ao longo da montagem dos telecentros e assim que os membros da comunidade ganharem experiência e entendimento das ferramentas.

É preciso notar, no entanto, que o telecentro vai cobrar por seus serviços para se sustentar e gerar recursos para a própria comunidade. Além disso, algumas pessoas da comunidade poderão ser empregadas nele. O mais importante é que se espera que as pessoas obtenham uma grande e nova experiência de abordagem de seus problemas. Essa experiência pode ser bastante “terapêutica” no longo prazo.

Rets – Os telecentros possuem algum propósito educativo mais específico?

Kenneth Msiska – Os primeiros estágios são educacionais por natureza, pois queremos que as comunidades aprendam a partir de suas experiências. Por exemplo, utilizando a “rede” e, num estágio posterior, a utilizando para criar atividades específicas que atendam a suas necessidades. Em relação aos estudantes, a rede lhes dá ferramentas de aprendizagem que podem ajudar em seus estudos. Também esperamos ligar vários grupos em comunidades online para que troquem idéias e se ajudem.

Rets – No Malaui há uma forte questão de genêro nas taxas de alfabetização. Só metade das mulheres lêem e escrevem, contra 76% dos homens. Os telecentros estão atentos a isso?

Kenneth Msiska – Uma das coisas que pretendemos combater é a desigualdade. Estando em uma área rural, os telecentros iriam parar no monopólio dos homens tradicionais se políticas deliberadas não forem postas em prática para deter esse movimento. Típico de um malaui rural, uma mulher mal pode sair de casa sem a autorização do marido, ainda mais se for para aprender coisas novas no mesmo lugar que ele. Acreditamos que a melhor solução seja sensibilizar a comunidade sobre a necessidade de empoderamento das mulheres à luz da sociedade da informação e dos perigos que tais atitudes podem trazer para o país como um todo.

Também estabelecemos políticas para acomodar mais mulheres nos programas de treinamento para que haja mais equilíbrio na sociedade. Como isso vai funcionar na prática ainda não sabemos.

Rets – Na página do projeto, você diz que a organização quer fomentar parcerias com outras organizações. Quais são elas e como vocês pretendem trabalhar?

Kenneth Msiska – Nossa visão é de que não podemos trabalhar sozinhos no projeto pois queremos alcançar vários grupos ou pessoas que possuam grande influência onde vivem. Estabelecer parcerias é uma maneira mais fácil de trabalhar com elas e com a maioria dos membros das comunidades. Os agricultores, por exemplo, estão sempre procurando formas de se ligar com informações de mercado, e por isso acreditamos que esse projeto seja de seu interesse.

Nas escolas, esperamos iniciar programas desenhados para a juventude que as frequenta e também para quem não frequenta. As parcerias vão variar de acordo com as demandas de cada escola e, por isso, ainda é cedo para dar uma lista do que vamos ou não fazer.

Rets – Você também diz que um dos obstáculos em potencial do projeto pode ser a falta de empreendedorismo no setor de TICs do Malaui, especialmente nas áreas rurais. O que pode ser feito para mudar esse quadro? A que se deve essa falta de empreendedorismo?

Kenneth Msiska – Como disse antes, as áreas rurais em geral não são lucrativas e, naturalmente, ninguém vai a esses locais. Mas agora há esperança pois o governo está implementando um Esquema de Desenvolvimento Rural Integrado ou algo assim, que vai disponibilizar serviços como eletricidade e correio, tornando essas áreas atraentes para moradores e investidores.

Outra maneira é que, a partir do momento em que o Malaui se encontra na lista dos países que tiveram suas dívidas canceladas, seria justo se o governo utilizasse parte dos fundos de pagamento para criar um Fundo de Acesso Universal, como fazem vários países com o objetivo de subsidiar o custo de investidores para que eles cheguem às regiões “não lucrativas”.

Rets – O que pode ser feito para aumentar a ajuda internacional para iniciativas de inclusão digital?

Kenneth Msiska – Há necessidade de enfatizar que quando falamos de TICs, não falamos somente sobre tecnologia, mas também de um propulsor de desenvolvimento. Essa é a mensagem que nossos líderes devem levar consigo. Até isso ser feito ainda haverá alguma hesitação para aceitar o que “tecnoevangelistas” como eu pregamos.

Marcelo Medeiros

Comentários via Facebook
COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here