POPULAÇÃO DE ALDEIA INDÍGENA É IGNORADA PELO PODER PÚBLICO.

NÃO SÃO BRASILEIROS TAMBÉM, OU EXISTE MAIS EM JOGO?

No município de Ilhéus, pólo turístico do estado da Bahia, muito próximo à orla atlântica, numa das paisagens mais bonitas do Brasil, existe a aldeia ITAPOÃ, dos índios tupinambá. Da elevação ocupada pela aldeia se vê o belo cenário formado por praias paradisíacas, condomínios de alto padrão e hotéis de veraneio de padrão internacional. Um lugar de sonho, se deixar de considerar as condições nas quais vivem as cerca de três mil pessoas que moram e trabalham na área da aldeia.

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As belezas naturais mascaram as precárias condições em que vivem os moradores da aldeia, que sofrem de todas as privações que se julgavam extintas no século XXI. São pessoas abandonadas à própria sorte, que sofrem preconceito por serem indígenas, por serem pobres e por não aceitarem viver sob a opressão do trabalho dito civilizado. Pessoas que moram em casas de taipa, construídas por suas próprias mãos, vivem da agricultura de subsistência, pintam o corpo e dançam o “PORANCY” nas sextas feiras em homenagem à natureza e ao culto seu deus, o “PAI TUPÔ. Porém as condições em que vivem são degradantes, a aldeia não possui distribuição de água potável e nem esgotamento sanitário. A água para consumo vem de nascentes, as casas ainda utilizam-se de latrinas, o que favorece que as pessoas sejam acometidas de verminoses, como se ainda vivessem em 1910. 

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A situação mais crítica é, como sempre em se tratando de Brasil, da educação. As crianças são assistidas em um núcleo escolar que de escola só possui o nome. Apesar do esforço das professoras indígenas, das cozinheiras e dos funcionários voluntários, a estrutura disponível não favorece o aprendizado, a biblioteca é uma estante improvisada, com livros doados pela comunidade. As salas de aula construídas em taipa, com alguns furos onde a chuva desgastou o barro e janelas improvisadas, destacando-se as carteiras novas, feitas em plástico, fruto de muita luta junto à secretaria de educação.

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Biblioteca da escola na aldeia ITAPOÃ

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Sala de aula.

É na cozinha da escola que a situação se torna aviltante, pois falta o essencial a qualquer local onde se prepare alimentos, a simples e tão comum água corrente. A escola simplesmente não possui água encanada, não possui a garantia de receber a merenda escolar, não possui um local adequado para estocagem dos alimentos, possui apenas uma equipe dedicada e caprichosa no cuidado com a comida que é feita para os alunos. ” A água vem da nascente, trazida em galões, pelos meninos”, como são tratados os colaboradores que auxiliam os trabalhos da escola, mostrando os galões cheios de água, a cozinheira apresenta uma cozinha improvisada, com buracos nas paredes e uma estrutura que beira o abandono. “O pior é quando acaba a merenda escolar, as crianças são dispensadas da escola às 15 horas e vão para casa com fome,” também se ouve da equipe de cozinha. A merenda demora até um mês além do prazo de entrega. Coisas da educação brasileira.

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Água armazenada para consumo dos alunos. Ah, os canecos foram distribuídos pela Secretaria de educação.

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Estrutura de armazenamento de alimentos. Não há água corrente, mas as panelas estão brilhando.

A educação desses pequenos brasileiros fica a cargo das professoras Luisa, Gilvani, Luciana  e Daniela, mulheres dedicadas, que caminham por quilômetros para levar o conhecimento a essas crianças desassistidas pelo poder público, que, além das matérias comuns como geografia e história, repassam a cultura ancestral tupinambá. Para que as raízes não se percam, buscam retomar a identidade de seu povo, trazendo de volta o orgulho de ser índio numa sociedade onde os indígenas sofrem do preconceito pelo simples fato de existirem. Agora eles querem se tornar novamente um povo, com raízes e com a cultura de seus antepassados. A busca da educação indígena é para “Num mundo de diferenças encontrar a igualdade”.

Com essa visão os pequenos tupinambás retomam suas origens, aprendendo, desde cedo, a dançar o PORANCY e olhar o mundo com os olhos da inocência e da esperança.

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Crianças tupinambás dançam o Porancy. Batendo forte o pé no chão.

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índiozinho tupinambá tem esperança em um futuro melhor, é o que mantém seu sorriso no rosto.

         A PEC 215 É A REEDIÇÃO DO EXTERMÍNIO INDÍGENA NO BRASIL.

INDÍGENAS DO BRASIL SOB RISCO DE PERDER OS POUCOS DIREITOS QUE AINDA POSSUEM.

A PEC 215, que é alardeada como a solução para os problemas territoriais indígenas no Brasil, é um veneno que será inoculado nas comunidades tradicionais, minando-lhes o pouco de vida que ainda resta aos índios que lutam pela ocupação de seus territórios tradicionais ao dar ao congresso dominado pelos latifundiários, grandes empresários e donos do capital, sem falar nos corruptos em geral, o poder de definir o que é território indígena e quem são aqueles que podem ser chamados de índios.

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Lagoa em área da aldeia indígena ITAPOÃ, ILHÉUS, BAHIA.

Ora, o Brasil é um país miscigenado em sua essência, a colonização começou com a exploração do trabalho indígena na retirada do pau-brasil, seguido pelo apresamento dos silvícolas para os trabalhos nas fazendas e plantações, os invasores europeus não tinham o menor pudor em fazer o uso da força para violentar e escravizar índias para satisfação de seus instintos. E no decorrer dos séculos a situação dos povos originais não melhorou, ao contrário, só piorou.

Querer que os indígenas, no século XXI, mantenham as características físicas do século XVI é, no mínimo, desconhecimento histórico, para falar o mínimo. No litoral do Brasil, onde ocorreram os primeiros contatos entre os índios e os invasores europeus se vê com maior facilidade essa mescla, que torna o índio uma mistura de características físicas, como é comum na população brasileira, enquanto que nos rincões amazônicos essa pureza física só foi mantida porque o invasor demorou muito para chegar até lá. 

Por isso a transmissão da cultura indígena é tão importante, do contrário os índios voltarão ao período colonial, onde eram orientados a se autodenominarem “caboclo” ao invés de terem orgulho de sua ascendência nativa, da sua convivência pacífica com a natureza e de seu modo de vida simples.

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Crianças em escola indígena na aldeia ITAPOÃ. A precariedade material contrasta com a dedicação dos professores e colaboradores da escola, que repassam às crianças os valores tradicionais dos tupinambás.

Os indígenas do Brasil são contra a aprovação da PEC 215 porque vão ser retirados deles não só o direito de possuírem um território onde possam viver e retirar da terra o sustento para si e para sua descendência, mas também vai retirar a esperança que as nações indígenas têm de, um dia, serem reconhecidos como um povo soberano que teve suas terras invadidas, um povo que foi explorado, escravizado durante séculos e que apenas agora, no começo do século XXI, começava a ver seus direitos básicos respeitados.

ESPERANÇA TUPINAMBÁ PASSA POR MINISTRO DA JUSTIÇA.

CACIQUE VALDELICE E AS DIFICULDADES DO POVO TUPINAMBÁ.

   Valdelice Tupinambá é uma indígena que vive na aldeia ITAPOÃ, na localidade de Olivença, no interior do município de Ilhéus, no sul da Bahia. Cacique de seu povo, Valdelice pode ser considerada a mãe do movimento Tupinambá pela retomada de seu território tradicional. Liderança tão importante entre os indígenas quanto o célebre cacique Rosivaldo Ferreira, o Cacique Babau, Valdelice guia sua aldeia na recuperação de sua identidade como povo e na retomada da cultura passada por seus ancestrais. Guerreira por natureza reivindica justiça e respeito à população tupinambá residente na área sob seu comando. Com voz calma e pensamento claro em relação ao conflito reinante na região que compreende o interior dos municípios de Ilhéus, Una e Buerarema, Valdelice discorre tranquilamente sobre vários aspectos da disputa pela terra em litígio, 47.000 hectares que são requeridos pelos índios tupinambá e pelos fazendeiros, grandes e pequenos, residentes na região.

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Com calma e tranquilidade, Cacique Valdelice falou sobre os problemas que afligem seu povo.

   Sobre a proposta de emenda constitucional (PEC) 215, a Cacique se diz contrária a sua aprovação pelo fato de que se daria ao congresso, dominado pela bancada ruralista, o poder de definir quais seriam os territórios que poderiam ser considerados terra indígena. Isso seria como pedir que os madeireiros da Amazônia decidam quais locais seriam possíveis de realizar desmatamento, ou seja, o interesse da exploração econômica prevaleceria sobre o interesse da população residente na região. Isso ocorreria em todo o território brasileiro, não só no sul da Bahia, trazendo um prejuízo incalculável para todos os índios que lutam para que suas terras sejam reconhecidas e que eles possam viver em paz, sem o risco de serem expulsos de suas aldeias para dar lugar a criações de gado ou plantações de soja ou qualquer outra monocultura.

   Em uma das aldeias existentes na região e sob o comando de Valdelice já residem mais de 60 famílias, numa área de 250 hectares, muitas dessas famílias descendentes de indígenas que viviam em situação de miséria nas periferias das cidades da região. A situação das aldeias não é melhor da que existe em muitos bairros pobres das cidades, falta água tratada, não há coleta de lixo ou tratamento de esgoto, doenças de pele e verminoses são casos comuns.  Porém, naquele local, o povo indígena conta com o respeito as suas tradições e com a esperança de um reconhecimento daquele território que traga para eles uma vida melhor e mais digna.

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Falta de saneamento básico é um dos principais problemas. Na foto, banheiros da escola, construídos pela comunidade.

A educação das crianças que vivem nas aldeias é feita de forma especial, em coordenação com a DIREC do município, as crianças tem acesso à educação comum e aprendem também aspectos culturais de seu povo, como a língua e os rituais. Tudo isso é repassado pelos índios mais velhos, os chamados “anciões” e ensinado nas escolas pelos professores e professoras indígenas, esses dignos de um assunto só deles, tal a determinação e o amor ao ensino exigido para que levem conhecimento àquelas crianças. As escolas constam de núcleos pequenos existentes nas aldeias, geralmente numa pequena casa de taipa erguida pela própria comunidade, que foram criados para que as crianças não dependessem de viajar distâncias enormes para frequentar a escola.

   Os indígenas não têm interesse em tomar a posse da terra e prejudicar os moradores da região. Como a posse foi dada pelo Estado Brasileiro, os indígenas cobram que o governo, em suas esferas, repare seu próprio erro e indenize as pessoas que possam vir a ter prejuízo quando deixarem suas propriedades. A contestação dos tupinambás é quanto à posse da terra que foi permitida quando se sabia que a área era indígena, gerando essa ocupação irregular por parte dos produtores. A luta tupinambá recebe apoio de alguns parlamentares, conhecidos lutadores  das causas populares como os deputados Amauri  Teixeira, Valmir Assunção, Yulo Oiticica e Dominguinhos.

   Uma tênue esperança de solução do conflito surgiu da promessa do ministro da justiça José Eduardo Cardoso de que assinaria a portaria de demarcação até o fim do mês de maio, o que, até agora, não aconteceu, trazendo apreensão aos envolvidos, visto que, no mês de junho, o país praticamente vai estar parado, em virtude da realização da copa do mundo da FIFA.

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Cabana da aldeia. Local de encontro e de realização de danças rituais.

 O que os índios desejam é que seja aprovada a demarcação e que seja realizado o levantamento fundiário com a indenização para os agricultores da região, o que evitaria o acirramento do conflito por conta da indefinição governamental. A falta do levantamento fundiário e da posterior indenização traria insatisfação e revolta para a parte atingida, o que não seria culpa dos tupinambás. Porém, sendo eles a parte mais fraca do conflito, certamente seriam os maiores atingidos pelo erro governamental.

Com muita calma e tranquilidade, a Cacique Valdelice fala que, em caso de negação a demarcação de seu território tradicional, seu povo buscará, por todas as vias legais, a recuperação das terras pertencentes aos Tupinambá de Olivença, para que eles vivam novamente com orgulho de suas origens, vivendo da terra e da natureza, tão cara à sua gente e de onde é retirado o sustento de todas as famílias que vivem naquela área, sob as bênção do Pai Tupã e sob os olhos vigilantes dos guerreiros e guerreiras tupinambá que, seguindo o exemplo de sua líder, sabem ser tranquilos nos períodos de paz e valentes nos tempos de guerra.

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Confiante, Cacique Valdelice olha em frente, sempre na busca de um futuro melhor para o povo que lidera.

 

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