Aproxima-se o dia 19 de abril e muitos estudantes são levados a pesquisarem sobre nós, indígenas do Brasil, devido à falta de material didático, capaz de transmitir aos alunos da rede pública ou particular de ensino conhecimento sobre cultura indígena.
Em primeiro lugar, existe um equívoco no ensino brasileiro, expresso nos livros de História do Brasil. Lá se fala de um “Descobrimento do Brasil”, quando na verdade um território foi invadido, nações inteiras foram dizimadas, milhões de pessoas mortas, em um genocídio de proporções incomparáveis em todo planeta. Aguardamos uma revisão historiográfica, a fim de que seja transmitida a verdadeira história do Brasil. Não se constrói uma nação sobre mentiras, pois assim jamais um povo se sentirá sustentado em bases sólidas. Sem raízes, não há base sobre o que se sustentar.
Nesse período do ano, as escolas públicas costumam “fantasiar” os alunos de “índios”, talvez pela falta de criatividade e senso crítico. Com isso, são transmitidas idéias distorcidas e fora da realidade, gerando nesses futuros adultos uma visão equivocada, que promove a segregação.
Nós, Povos Autóctones, habitantes desse continente, não delimitamos ou demarcamos territórios. Cada Nação possui sua organização, umas possuem chefes, outras não. Cada Nação tem suas peculiaridades culturais, seus saberes, sua forma ímpar de lidar com a organização de sua comunidade.
Entre as comunidades indígenas existe algo em comum: a forma de se relacionar com a Natureza, e com tudo que nela existe, porque acreditamos que para haver vida, é preciso cuidar do meio ambiente em que vivemos. Enquanto hoje se discute uma forma racional de consumo, tentando-se a todo custo conscientizar a população da necessidade de preservar o meio ambiente, nós, Povos Autóctones, desde pequenos lidamos com o consumo consciente. Não somos gananciosos, nem usurários, não acumulamos riquezas, por acreditarmos que devemos viver cada dia como se fosse o último, partilhando o que produzimos, sendo um corpo coletivo. E tudo que aqui existe deve ser cuidado para as futuras gerações.
Nossos saberes são muitas vezes hostilizados pela sociedade, somos vistos como primitivos, porém o produto de nosso solo e nossos saberes são usados como matéria-prima pelas indústrias farmacêuticas e de cosméticos. A “verdade científica” se apropria de uma prática comunitária milenar bebendo na fonte do senso comum.
Com a invasão de nossos territórios, somos obrigados até hoje a conviver com as violações que nos foram impostas pelos colonizadores: demarcação de território (impedindo-nos o direito de ir e vir); etnocídio; epistemicídio, ou seja: uma destruição de conhecimentos, idéias e culturas; genocídio (até hoje somos objetos de caça); estupro, miscigenação imposta.
Ainda hoje, somos 230 etnias, e mais de 180 línguas são faladas, em todo território brasileiro, e, no entanto, insistem em usar o tempo verbal do passado, quando falam sobre nós. Descaracterizam-nos, chamando-nos de “índios”, pejorativamente, como se não fôssemos humanos, mas simplesmente selvagens.
Possuímos religião, moral e ética. Em nossas organizações, não existem sistemas prisionais – cadeias – para punir os que praticam atos delituosos. Vivemos em comunidade, e não em sociedade: isso não significa que não existam conflitos, mas, cada povo tem sua forma de lidar com eles, sem coação.
Se hoje a maioria do nosso Povo não consegue viver dentro dos moldes da civilização ocidental foi devido a um choque de culturas. Mesmo assim continuamos resistindo para manter nossa culturas e tradições. A falta de respeito da cultura ocidental, ainda existente em relação a nós, Povos Autóctones, nos marginaliza.
Deixo aqui um apelo aos pedagogos, professores: Aproximem-se de nós, conheçam a realidade do indígena hoje, transmitam aos seus pupilos uma história mais próxima da verdade, nos colocando em contato, seja nas escolas, seja nas aldeias. Assim transformaremos o dia 19 de abril na esperança de um mundo melhor, onde todos possam estar próximos, respeitando as diferenças existentes!

Yakuy Tupinambá
(yakuy@indiosonline.org.br)

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15 COMENTÁRIOS

  1. O texto é muito bom e pode permitir um bom debate em sala de aula. Vou encaminhar para alguns professores que saberão estimulá-lo na Universidade.

  2. Professora, Iara!
    Nosso muito obrigada, pelo comentário. Agradeçemos sua colaboração em levá-lo para sala de aula, acredito, que a educação é o único caminho capaz de promover mudanças, e que às mudanças sejam para humanizar o homem, aproximá-lo dos semelhantes.
    Por isso, resolví escrever esse apelo aos educadores.

  3. Ola, sou de Manaus. Atualmente estou pos-graduacao no Japao. A cultura japonesa e maravilhosa.
    Estou surpreso em ver como os japoneses conseguem manter preservada a cultura em meio a tanta tecnologia e desenvolvimento. Os japoneses, dos mais novos aos mais velhos, tem orgulho em falar sobre a importancia de preservar a cultura, os sotaques e dialetos, as formas de vestir, os ritos e dancas, as formas de comer e cozinhar, as bebidas. Os jovens nao tem vergonha de usar vestimentas antigas, sandalias de madeira, de participar de eventos culturais com dancas. Meus amigos japoneses sempre pedem para eu mostrar fotos de tribos indigenas. Infelizmente eu digo que nao tenho, ainda assim, eles dizem que nos brazileiros devemos nos orgulhar muito de termos uma cultura rica e diversa. Atualmente estou preparando um site pessoal, catalogando fotos indigenas sobre a cultura, artesanato, tribos, escrevendo pequenos textos em ingles. Minha ideia e somente uma simples contribuicao para divulguar a cultura indigena no meio academico aqui no Japao e nos contatos com amigos de outras universidades do mundo.
    Que festejemos o dia 19 com orgulho e esperanca.
    Sucesso a todos
    A*

  4. Entendemos que muitas das vezes quando falamos “índios” eles se sentem ofendidos, pois para eles estamos chamando-os de selvagens, e eles pedem para os professores para falarem a verdadeira história do índio!!!

  5. Olá, meu nome é Joice, sou professora de História e gostei muito desse projeto. Acredito que vocês estão no caminho certo. Vou usar parte dessa matéria nas avaliações para que os alunos possam conhecer um pouco mais sobre esta fantástica comunidade que tanto contribuiu e continua ainda hoje sendo um exemplo de determinação para todos nós.
    Um abraço.

  6. Eu acho a aldeia KARIRI XOCO MUITO INTERECANTE , POR ISSO ESTOU FAZENDO UM TRABALHO E GOSTARIA DE SABER MAIS SOBRE ESSA ALDEIA ,E GOSTARIA QUE VOCES PUDECEM ME DAR MAIS INFORMAÇOES .

  7. Excelente!!!!
    Já estou divulgando, junto com um convite a visitação do site…e mais uma vez, tomo a liberdade de me colocar como contato para agendar visitas coletivas ao chat…já que não saberia a quem encaminhar….
    Caso eu receba algum pedido, encaminharei a vc, Sebastian…ou a Alex…

    A união faz a força!
    Um abraço!

  8. Gostei muito do trabalho de vcs…

    espero que numca deixe essa cultura morre.

    hoje a minha escola foi visitada por índios dai.

    e foi um prazer telos lá.

    bjus e continuem sempre assim.

  9. OLá
    Faço parte de um grupo de escoteiros e estaremso homenegando a todos os índis que fazem parte da hitória do Brasil.
    Gostaria de receber informações e alguns jogos indigenas que possamos passar aos nosso jovens.
    Desde de já agradecemos
    Atenciosamente

    Chefe Neda
    “Sempre Alerta”

  10. Olá, não conhecia esse site, foi uma surpresa muito boa saber que existem fontes de informações como esta sobre a cultura dos povos primitivos.
    O texto é muito bom e pode ser usado não apenas em sala de aulas mas em vários outros anbientes de discussão.
    abraço

  11. excelente matéria, e a pura verdade sobre a nossa realidade hoje, mas sempre divulgo e falo das minhas origens mesmos as vezes com alguns preconceito.

  12. oi
    meu nome é castros silva barbosa mendiga duque de almeida.
    vocês pertencem a floreta, toda ves=z que eu vejo ela vocês estão la.
    a minha professora fez um trabalho com seis indios diferentes.gosto muito de vocês.
    thau! vejo vocês no domindo!

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